sábado, 9 de outubro de 2010

Perguntas e respostas - 02.




Marcela: …vi também seu canal no You Tube e o vídeo de lançamento do Sebastian. Adorei! Aqui você desconstrói uma parte do que escrevi na monografia a partir dos poucos materiais que estão disponíveis na Internet – e, pelo visto, não muito confiáveis! Realmente dizem que o comercial foi baseado na cena do The Blues Brothers, em que Cab Calloway anima uma platéia. E que Jose Possi Neto foi escolhido o diretor e na época dirigia o “Emoções Baratas”, de cujo elenco surgiu o Sebastian. Vamos ver se entendi... posso dizer então que o comercial foi baseado no “Emoções Baratas” e tem elementos do The Blues Brothers? É meio que a inversão do texto, mas faz muita diferença de sentido, deslocando o foco maior no filme.

Resposta: Vou criar o post "Porque foi criado o Sebastian" para explicar detalhadamente um processo que levou 4 anos e extrapola as simples hipóteses que a imprensa divulgou e as declarações dadas pelos que vislumbraram a oportunidade de pegar carona na história. Neste parágrafo responderei o núcleo da questão:
Os filmes de lançamento da campanha "AbuseUse C&A" e não "o filme" não foram baseados em The Blues Brothers tampouco no Emoções Baratas do Possi. Eu criei a estrutura da campanha de maneira que pudéssemos produzir tudo de uma só vez, como se fosse uma série de TV para ser exibida em capítulos. Cada capítulo com o foco na data promocional do varejo, como dia-das-mães, dia-dos-namorados, dia-dos-pais, etc, com a promessa de que "cada vez que você ouvir AbuseUse, tem ofertas selecionadas na C&A". Elementos estéticos e estilo de narrativa cinematográfica, aí sim, foram aplicados, já na fase de roteirização e não na de conceituarão, baseados nas obras já citadas, somadas outras referências como Grace Jones, Max Headrom e outros ícones de modernidade da época. Mas, apenas para desenhar a estética dos filmes. É porisso que eu tanto contestei os jornalistas mal informados e os oportunistas caronistas, por suas declarações simplórias. Eu sou publicitário, não cineasta. Meu cliente me contrata para criar campanha publicitária, comercial, não obra de arte ou entretenimento.
Também é simplório afirmar que o Possi foi chamado apenas por seu "Emoções Baratas". Como expliquei em post anterior, eu tinha um convívio profissional com o Possi, fruto de atividade paralela no ramo de produção de espetáculos, que originou uma parceria na criação e concepção dos filmes. Dos filmes, roteiros, decupagem, não da campanha, do conceito comercial. O feeling de que o Possi agregaria qualidade, novidade e estética aos filmes, culminou com a indicação do Sebastian. É porisso que eu sou reticente ao afirmar que eu criei o Sebastian. Eu criei um ícone comercial. O Sebastian, em si, já veio criado, com o carisma e talento dele. O Possi o destacou dentre as inúmeras opções e talhou sua performance, criando assim o personagem. Eu prefiro dizer que eu criei o ícone, o Possi o personagem.
Meu conselho, Marcela: não se atenha a detalhes dos filmes e sim da campanha, do conceito da mesma. Você está escrevendo uma tese de propaganda e marketing e não de cinema.

Marcela: …tenho a opinião de que de alguma forma o Sebastian não se enquadra mais nos “anseios” da empresa. E também não concordo. Acho válida a proposta de agregar valores do mundo da moda ao contratar modelos, estilistas, etc … Mas quem disse que o Sebastian não é fashion?! Ele poderia coexistir com as modelos, em comerciais separados, sei lá, mas não sumir! É uma pena... Vários artistas já estrelaram campanhas, mas era do Sebastian que as pessoas gostavam e lembravam. E, como todo mundo sabe e você mencionou, o endosso de celebridades tem seus prós, mas também seus contras, já que hoje endossam uma marca hoje e amanhã estarão endossando outra, muitas vezes se envolvem em escândalos e “queimam o filme da empresa” e por aí vai, né? Um garoto-propaganda fixo é outra coisa. Se bobear acontece o que aconteceu com o Carlinhos da Bombril, que fez tanta falta e foi tão solicitado pelo público, que acabou voltando! Enfim, é só a opinião de uma simples estudante e consumidora...

Resposta: Vou abordar este assunto por aqui, porque diz respeito à atualidade e ao período pós-lançamento da campanha, portanto, não se enquadra ao tópico criado especialmente para tratar da criação do personagem. Primeiramente vamos lembrar que a opinião das empresas é formada a partir da opinião de seus dirigentes e, ao longo desses 21 anos, desde a criação do personagem, os dirigentes mudaram.
O retorno de Carlinhos Moreno só ocorreu por isenção pessoal dos dirigentes da Bombril e veio acompanhada do retorno do Olivetto à frente da conta publicitária do anunciante. Vamos lembrar que a mudança na direção executiva da C&A culminou no encerramento da Avanti, a house-agency que deteve a conta durante 24 anos, construiu a imagem e a história de sucesso da C&A na América Latina.
Marcela, você pegar uma celebridade pronta, criada a partir de um poderoso complexo de mídia, é infinitamente mais fácil e requer muito menos talento do que fazer o que eu fiz com o Sebastian e o Olivetto com o Carlinhos Moreno. Infelizmente, a geração que antecede a sua e muitos da sua, caracterizam-se por profissionais mal-preparados, equivocados, de visão limitada, acostumados ao fácil, ao cômodo, ao estilo pasteurizado e enlatado que é amplamente oferecido pelos meios de comunicação na atualidade. A falta de preparo profissional somada à incapacidade intelectual resulta em insegurança e auto-conhecimento de sua mesquinhez, gerando um sentimento auto-depreciativo que se defende, se protege, adotando a soberba como muleta.

Marcela: Não entendi muito bem quando disse que no momento em que cogitaram a Gisele você ainda estava na “geladeira”. Como assim? Não era mais da Avanti e não estava atuando nem como free-lancer para a C&A, mas sabia o que acontecia nos bastidores? É isso?

Resposta: Como expliquei no post anterior, devido à mentalidade paternalista da empresa, àquela época, ex-funcionários não eram aceitos como colaboradores ou fornecedores. A Gisele e o que ela viria a significar para a imagem da marca começou a ser cogitada no final da década de 90 e veio a concretizar-se no ano 2001. A partir do ano 2000 a "geladeira" começou a "descongelar" e minha amizade com o pessoal da Avanti e colaboradores contribuiu muito para o "degelo" e para minha permanência, sim, "nos bastidores".
Quando fui consultado, inicialmente, me postei contra, contudo, ao longo das pesquisas que foram sendo realizadas, comecei a mudar de opinião, especialmente porque notamos que poderíamos integrar Gisele e Sebastian, harmoniosamente, sem causar confusão no entendimento público da proposta. O Ralph é profundo conhecedor e interpretador da parte teórica, especialmente no segmento de varejo de confecção e conduziu todas as pesquisas no sentido de alavancar a imagem da C&A ao patamar alcançado com o apoio da imagem da Gisele, que era muito diferente do objetivo pelo qual foi criado o AbuseUse e o Sebastian 10 anos antes. Gisele foi a ponte para a imagem que a C&A quer ter hoje. Hoje, a C&A não está mais preocupada em vender a roupa mais barata do mercado. Hoje, o conceito que eles sempre adotaram, o "good value for money" se traduz em valor agregado e não em economia. Hoje, eles podem adotar esse conceito, pois, têm uma marca construída com bom-gosto e responsabilidade. Um patrimônio. Com lojas e produtos que condizem com esse conceito. E aí reside o "X" da questão: para você integralizar uma imagem como a da Gisele ao seu patrimônio, você tem que se preparar para promover essa mudança em suas lojas e em seus produtos. Foi isso que me deixou reticente, à época, e que o Ralph veio a garantir que seria a transformação maior que a empresa sofreria nos 10 anos seguintes.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Quem merece.

"Quem merece" é um espaço de opinião neste blog. "Quem merece" pode, a cada caso, ser pergunta, exclamação, crítica, ou indicar quem fez por merecer. Quem merece!

O primeiro post dessa tag eu dedico ao meu mestre em Promoção e Merchandising, Silvio Renato Freire. Silvio está, sem dúvida, na categoria de quem fez por merecer.

Silvio foi meu segundo empregador, o que me alçou a Diretor de Arte quando eu tinha apenas 18 anos incompletos e quase 4 anos de profissão como layoutman.

Mais do que meu empregador, Silvio sempre demonstrou ser um incentivador, um amigo, um professor cuja didática extrapola a teoria monótona, dogmática e predadora. Seu método, na minha opinião, é tão bem sucedido, pois, alia sua inteligência e experiência ao seu carisma, que, cada vez mais, percebo ser fundamental para o amplo desempenho profissional em todos setores e, é claro, em nossos relacionamentos pessoais.

Silvio não é o único, mas é, sem dúvida, o pioneiro no domínio da teoria, técnica e prática do marketing promocional no Brasil, em seu sentido mais amplo. O que eu quero dizer é que, é claro que 45 anos depois de Silvio ter começado sua carreira profissional especializada em promoção e merchandising, outros profissionais foram formados e se destacaram, mas, vieram depois dele e, muitos, aprenderam com ele. Assim como muitos nomes talentosos surgiram após David Ogilvy. Mas, primeiro, houve David Ogilvy e a história passa a ser contada a partir daí.

Pois bem, minha homenagem, aqui, ao mestre e também o interesse de comunicar que Silvio lançou há poucas semanas, após longa incubação e ainda sem estar como ele quer, conforme ele me confiou, seu blog: http://www.silviofreire.com.br/ . Vá conferir. Se você acha que é mais um canal de lero-lero do meio publicitário, notará o quanto se engana. Silvio está pondo online, uma autêntica biblioteca, teórica e prática, talvez uma biografia profissional de quem mais entende de promoção e merchandising neste país.

Ao meu mestre, com carinho, meu muito obrigado por tudo que me ensinou e tem me ensinado.

Silvio Freire é quem merece.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Topshop abrirá loja no Brasil.

O bilionário britânico Philip Green, 58 anos, é conhecido na Inglaterra por seu faro apurado para bons negócios. Ele começou a carreira empresarial com pouco mais de 20 anos e um empréstimo de 20 mil libras (cerca de R$ 52 mil), que usou para importar jeans do Oriente e revender na Inglaterra.

Aos 27 anos, já capitalizado, comprou todo o estoque de dez grifes que tinham ido à falência por praticar preços muito baixos, mandou para uma lavanderia para se livrar do pó e colocou as roupas lavadas à venda. Foi um sucesso. Tornou-se presidente de uma fabricante de roupas populares, tornou-se investidor profissional e construiu uma fortuna avaliada em 3,8 bilhões de libras (US$ 5,5 bilhões).

Em 2002, Green deu sua grande tacada ao comprar o grupo Arcadia, gigante de varejo do Reino Unido. Agora, seu faro aponta para o Brasil. “Se você quer criar uma marca global, tem que alcançar novos mercados”, disse Green à agência Bloomberg. Estreará por aqui, com a Topshop.


Topshop (Divulgação)

Sucesso entre o público feminino e rival de redes como a espanhola Zara e a sueca H&M, a Topshop tem 400 lojas espalhadas pelo mundo e é especializada no chamado fast fashion. Green pretende replicar esse modelo de negócios por aqui.
“Nos últimos cinco anos, a cadeia varejista brasileira ficou mais próxima dos movimentos da moda internacional”, diz Altamiro Carvalho, economista da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP). A Topshop brigará com todos.

Fonte: Isto É Dinheiro

Campanha de Dia das Crianças da C&A, com o mundo de faz de conta e a Angélica.

A promoção não é nada sedutora nem inédita, mas, o filme é espetacular! Confira: http://www.youtube.com/watch?hl=en&v=9Ifg3NpGiJ4&gl=US

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Perguntas e respostas - 01.

Marcela: Entrei em contato com você para esclarecer algumas coisas e não correr o risco de cometer erros conceituais grosseiros e supervalorizar ou desmerecer alguém. Nem todas as fontes citam seu nome, por exemplo, o que é uma injustiça. Cheguei até você, pois uma professora da faculdade, que me ajudou a elaborar o pré-projeto da monografia, fez uma pesquisa em 2002 sobre negros na publicidade brasileira, inclusive entrevistado o Woody Gebara. Ela me enviou um material que tinha e a entrevista na íntegra. Nesse material (extraído de revistas e da Internet) havia um texto seu da seção ‘Painel do Leitor’ de uma revista (Ilustrada), em que você desmente uma série de informações publicadas, afirmando que o fato de o Sebastian ser negro não foi um pedido do cliente (C&A); que a C&A não foi a primeira marca a colocar no ar negros em campanhas publicitárias; que o filme de estréia do Sebastian não foi o primeiro da C&A a apresentar negros, outros já o faziam, representando a diversidade étnica do Brasil; e que vocês não escolheram um negro para dizer que eram, nas suas palavras, “legais, bonzinhos, politicamente corretos, não-racistas ou qualquer rótulo dessa natureza”. Achei muito legal a sua atitude de se posicionar a respeito e descobri que você era um dos criadores do Sebastian. Então, joguei ‘Waldir Costa’ no Google para me informar, até que cheguei ao seu outro blog.


Resposta: Pois é, Marcela, eu sempre me preocupei somente em promover os meus clientes e não a mim. Sempre fui dos bastidores e não me preocupei se caráters menos dignos estavam levando as glórias às minhas custas.
A matéria que você citou foi publicada no jornal Folha de São Paulo, em seu caderno "Folha Ilustrada" e era uma primazia de "desinformação". Como eu tenho gastrite e não posso engolir porcaria, tive que botar pra fora e exigi retratação.
O que importa, de fato, é que os documentos comprovam a verdade. Eu tenho inúmeras matérias de veículos impressos que estampam eu, Ralph e Cimino, até mesmo na capa. O Meio&Mensagem, sem dúvida o maior veículo especializado na nossa área, fez uma matéria, a principal daquela edição, entrevistando eu e o Ralph. O Prêmio Profissionais do Ano, da Rede Globo, foi concedido à mim e ao Possi, pela criação do AbuseUse e do Sebastian e não a mais ninguém e isso está gravado na história do Prêmio. E eu tenho o documento "mor": minha carteira profissional.

Marcela: Na sua opinião, resumidamente, o que significou o Sebastian para a C&A? O que fez com que ele obtivesse tanto sucesso? Como foi a repercussão na época? Você tem dados numéricos de aumento nas vendas?

Resposta: A criação de um personagem símbolo de momentos promocionais era uma missão dada, já há muito, pelo Van Der Zee, a mim e ao Ralph. No festival de Cannes, em 1989, vimos um filme do whisky JB que nos deu a idéia. Seria um personagem fashion, que apresentaria as ofertas e conceitos promocionais cantando e dançando. Essa história plantada de que foi criado com base no personagem interpretado por Cab Calloway no filme The Blues Brothers é pura balela. As gags utilizadas no filme foram sugeridas pelo Zé Possi, com base no The Blues Brothers, assim como a música que serviria de tema base para a criação da nossa música. O Cab Calloway já era bem idoso e criar um personagem baseado nele só pode passar na cabeça de quem não tinha a menor noção dos policies da C&A. Isso é interpretação daqueles que só viram o vulto, pela janela, atrás da cortina, sem saber exatamente o que acontecia no interior. Eu planejei toda a estrutura da campanha no espetáculo "Emoções Baratas", que o Possi estava montando e a Bia Aydar estava produzindo. Só eu, o Possi e a Bia já tinham visto os ensaios e sabiam do que se tratava. Tanto que o Sebastian era um dos bailarinos que estrearia o espetáculo.

Eu disse ao Ralph e ao Cimino: "Não adianta a gente só criar o personagem. Precisamos mais do que isso, para não ficar brega. Precisamos criar um sinônimo, só nosso, de período de ofertas. E assim foi criado o tema "AbuseUse C&A. Ofertas selecionadas". A primeira frase que o Sebas canta no filme de lançamento é: "Atençao, pra você eu vou contar, sempre que você ouvir AbuseUse, tem ofertas selecionadas na C&A". Veja no meu canal no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=yVrh6yt9EdA

O Sebastian significou isso para a C&A. O início da era de consolidação da imagem de varejo de moda que não é brega e se compromete a praticar o conceito "good value for money". Um personagem que, pelo seu talento e carisma, conquistou a simpatia de famílias inteiras e a C&A vende roupas para a família toda e não somente para os fãs da Beyonce.

A repercussão foi estupenda, desde o início e ainda continua sendo. Outro dia tomava um café com o Sebas e um sem número de pessoas vieram pedir autógrafos, tirar fotos, perguntando se era verdade que ele não faria mais C&A e que torciam para ele voltar. Sebas é uma figura, uma simpatia e as pessoas não têm receio de se aproximar dele e serem recusadas, como acontece quando se aproximam dos grandes astros.

Eu não lembro de números. Faz muito tempo e eu sou péssimo com números. Hehehe...

Marcela: Muitos textos afirmam que o Sebastian rompeu preconceitos e foi o primeiro garoto-propaganda negro na publicidade brasileira, o que eu mesma questionei. Essas afirmações categóricas são muito perigosas, né? (Na hora me lembrei do Grande Otelo, das Óticas do Povo, por exemplo.) E seu texto na revista também desmente isso. Para descrevê-lo sem errar, posso afirmar que o Sebastian foi um dos primeiros e poucos negros a permanecer tanto tempo como garoto-propaganda de uma marca? Ou você acha que devo evitar esse tipo de afirmação?

Resposta: Não sei se foi o primeiro negro, acho que não. O fato é: o Sebastian foi o ícone da C&A por 20 anos. No Brasil, acho que só o Carlinhos Moreno para a BomBril permaneceu por muito tempo e mesmo assim interrupto. O Sebastian ficou por 20 anos ininterruptos.

Marcela: Este ano o Sebastião Fonseca anunciou o fim do seu contrato com a C&A, após 20 anos. O que você achou disso? Acredita que ele não mais se enquadrava à proposta de “glamourização” da C&A a partir da agregação de atributos do mundo fashion, que se iniciou a partir da campanha com a Gisele Bündchen e continua com as outras modelos? (Essa é uma pergunta que eu gostaria muito de fazer a alguém que atualmente trabalhe na área de Marketing da C&A. Eu gostaria de tentar, embora não tenha certeza de que vá conseguir, pois sei que a empresa tem uma política de sigilo bem rígida. Você acha que vale a pena eu tentar?)

Resposta: Olha, costuma-se dizer que tentar não dói. Se você se preparar para ouvir balela e souber filtrar e analisar o que vai ouvir...

Marcela: Falando em Gisele Bündchen... Como contou, após sair da Avanti você continuou trabalhando com a C&A, como free-lancer. Você chegou a participar de alguma forma da campanha de 25 anos? Se sim, poderia me contar um pouco como foi? Tendo participado ou não, o que achou da campanha? Considera que foi mais um marco?

Resposta: Quando o nome Gisele começou a ser cogitado eu ainda estava na "geladeira". Eu nunca fui favorável, não pela Gisele, que é uma excelente profissional, mas é o que já expliquei: o Sebastian é único. Um nome da moda passa como a moda, você tem que renovar sempre. E aí esse ícone faz publicidade para outras marcas. Qual a identidade que ele tem com a sua marca? Na época, se você estivesse na Rua do Ouvidor, aí no Rio, em frente à loja C&A e perguntasse para 10 passantes se conheciam a Gisele e o Sebastian, certamente 10 responderiam que conheciam o Sebastian e apenas 1 saberia que a Gisele é uma modelo, ponto, nada mais que isso.

Tanto que não tiveram coragem de aposentar o Sebas já naquela época. E olha que tentaram viu!
Aí vem uma mente brilhante (isso é ironia, tá) e soluciona: vamos por os dois juntos nos anúncios, Sebas e Gisele. Queriam fazer o mesmo com o Ricky Martin, que se recusou, aí o Sebas ficou fazendo só as campanhas de telefone celular, na fase do Ricky.

Mas, sim, foi marcante. A C&A faz ser marcante. É um caminhão de dinheiro investido em mídia e produção.

sábado, 11 de setembro de 2010

Primavera-Verão 2010 na Avenida já mostra crescimento em vendas.

A campanha Primavera-Verão 2010, que criei para as Lojas Avenida ( http://www.youtube.com/watch?v=gZh-8_xqXks ) já apresenta resultado de crescimento nas vendas.

Rodrigo Caseli me informou hoje: "Fechamos a primeira dezena ontem, com 27% de crescimento sobre 2009 e poderá melhorar na próxima semana. E na última dezena acredito que vamos arrebentar, em função da campanha de Cameba".

Ele merece!

"Case C&A". Um "case" para o mercado, uma história de vida e aprendizado para mim e meus parceiros.

Este tópico foi criado a partir da abordagem da estudante de Publicidade da UFRJ, Marcela Marçal Dias, e vem de encontro ao livro que estou escrevendo com um parceiro que ainda não autorizou a divulgação de seu nome, provisóriamente intitulado "VW. Como construímos uma marca.".

O que tenho a dizer, primeiramente, Marcela, é que as oportunidades aparecem, como agora, e o nosso sucesso depende de sabermos identificar e otimizar oportunidades.
Você verá, ao longo de nossa conversa, que eu e esse misterioso parceiro, lidamos com isso para construir, sem dúvida, um dos maiores "cases" de construção de marca no Brasil.

Quero começar esclarecendo que, em campanhas de grande porte, como as da C&A, existem centenas de profissionais envolvidos e há uma minoria, se comparada aos colaboradores, que está intimamente ligada ao cliente, na gestão de seus interesses. Eu estive entre essa minoritária minoria por mais de duas décadas.

Explico:
Em 1984, eu estava com 24 anos e era Diretor de Criação, junto com Mário D'Andrea (que hoje é Presidente da JWT no Brasil) da conta do Shopping Center Ibirapuera, na Dois Pontos Publicidade. O Edgar "Woody" Gebara era um dos redatores de nosso time.
A loja da C&A no Shopping Ibirapuera foi a primeira loja em shopping que a C&A abriu no Brasil (o nome do Banco IBI, que foi criado pela holding da C&A, é a sigla da loja que deu a "arrancada" da C&A aqui) e a C&A era a âncora principal do shopping. Veja em http://pt.wikipedia.org/wiki/Fam%C3%ADlia_Brenninkmeijer

As campanhas do Shopping Ibirapuera, à época, abriram os olhos do Vice-Presidente de Marketing da C&A, Theodorus Van der Zee, para o trabalho que eu e o Mário D'Andrea vínhamos realizando e daí surgiu o convite para ir para a C&A e formar o time de criativos da house-agency que estava sendo criada, a Avanti Propaganda.

Ocorre que a minha surpresa aconteceu quando, na entrevista definitiva de contratação, com o Van der Zee e o John Brenninkmeijer (que era o Presidente da C&A no Brasil àquela época), me disseram que o departamento de RH havia identificado que eu tinha potencial para ser mais que um Diretor de Criação da Avanti e que a proposta era de eu ser treinado para ser um executivo de marketing de varejo e contribuir para que a C&A liderasse, em pouco tempo, o ranking de varejo de moda de grande porte na América Latina. Para isso, eu teria de começar montando um time de colaboradores de primeira linha na Avanti.
Passei a primeira quinzena estagiando na loja da C&A no Shopping Center Norte (a mais nova loja à época) e os trinta dias seguidos percorrendo as lojas da capital de São Paulo e Santos.

Quando voltei para a Avanti, fui apresentado para o rescém nomeado Diretor de Publicidade da C&A e CEO da Avanti: Ralph Benny Choate. Ralph estava completando sete anos na empresa, com uma carreira meteórica que iniciou como trainee e chegou a team-leader de produtos, até ser promovido ao cargo já citado.

A empatia com o Ralph foi imediata e aí começou uma duradoura parceria profissional.

A missão era árdua! Eu tinha apenas 24 anos, o Ralph uns 8 anos mais velho e uma responsabilidade que nossos ombros só suportaram porque somos muito ambiciosos e temos o que chamamos de "o vírus do varejo nas veias".

A C&A nos propiciou, de imediato, um extenso programa de treinamento nos mais importantes centros varejistas europeus.

Após o primeiro ano de espetaculares resultados de imagem e posicionamento alcançados com a comunicação da marca no Brasil, já fomos convocados para compartilhar nossa experiência com a filial no Japão, que tinha o mesmo tempo de existência da C&A no Brasil e não decolava.

E lá fomos nós, eu e Ralph para Tóquio. Em Tóquio conhecemos o irmão do John Brenninkmeijer, que era o Presidente da C&A no Japão àquela época. Ele nos brifou e nos conduziu à Dentsu-Young&Rubican, que tinha a conta da C&A no Japão. Trabalhamos com a equipe da Dentsu durante um mês e mais do que a contribuição que dei, perdurou o que aprendi com os Japoneses e sua filosofia. Uma experiência inesquecível!

Em nosso retorno ao Brasil somamos o terceiro mosqueteiro que, efetivamente, nos fez construir a marca C&A no Brasil: Valdir Cimino.

Valdir Cimino é, hoje, Presidente-Fundador da Associação Viva e Deixe Viver e vive com a felicidade de levar felicidade para crianças que não tiveram a oportunidade que a nós foi concedida.

E o Ralph, você sabe, está reconstruindo a imagem da Riachuelo.

Em 1990, estimulados pelo sucesso do lançamento do AbuseUse C&A e do Sebastian, seduzidos por tentadoras propostas do mercado, eu e o Cimino resolvemos sair da Avanti. O Cimino foi para a MTV e eu para a house-agency da Sharp.

Em 1991 o Cimino foi para a Rede Globo e eu montei a Wham Waldir Costa Art Directors com um contrato de dez anos para criar, junto com o Cimino e sua equipe, a identidade da Superintendência Comercial da Rede Globo de Televisão (SUCOM), que hoje se intitula Direção Geral de Comercialização.

Em minha Carteira Profissional consta que deixei de ser funcionário da C&A dia 6 de agosto de 1990. Nessa oportunidade disse ao Van Der Zee que estava deixando a empresa, muito grato por tudo que investiram em minha formação profissional, mas, precisava encarar novos desafios, que incluiam abrir minha própria empresa de criação e comunicação e que ter a C&A como cliente me honraria muito. Van Der Zee me acenou com a recíproca verdadeira, contudo, na prática, não foi bem assim.

A C&A é uma empresa originalmente familiar e lotada de princípios éticos/administrativos e um dos mandamentos paternalistas impostos era: "ex-funcionário que se estabelece não pode vir a ser fornecedor". Os clássicos conceitos administrativos impostos pelos Brenninkmeijer perduraram até a aposentadoria do Van Der Zee e a Presidência da holding, Cofra, ser assumida pelo Luiz Antonio de Moraes Carvalho e isso se deu no final da década de 90.

Durante este período eu estive extremamente ocupado com meu contrato com a Rede Globo e nem liguei para o fato de o apalavrado não ter sido honrado.

Um ou dois anos depois de eu ter saído o Ralph me confiou um job para a criação da campanha do novo Cartão de Crédito C&A, pois achava que não teria oposição e quase foi crucificado.

Logo que o Luiz Antonio assumiu a Presidência da Cofra - isso se deu junto com a criação do Banco IBI - o relacionamento se refez, pois, não havia mais impedimentos impostos. Contudo, eu não tinha mais tempo para estar presente full-time, pois tinha meus afazeres na Wham.

No início de 2005, após terem aprovado o plano estratégico de cinco anos, o Ralph me acenou com uma tentadora proposta para eu deixar a gestão da Wham, durante aquele ano, a cargo de outro gestor e fazer a gestão da criação na Avanti, como colaborador terceirizado, não como funcionário, contudo, eu teria que estar presente lá full-time. Eu aceitei.

O mais marcante, nessa fase, foi a criação da campanha de primavera-verão, que marcou o encerramento do contrato com o Ricky Martin. Durante oito meses de contrato, não havia usado uma música dele num comercial. Estava óbvio para mim: vamos encerrar a participação dele em alto estilo, ele interpretando "Viva La Vida Loca". E o filme foi produzido todo no estilo "vida loca".

Bem, sua primeira pergunta foi: "Quem era sua dupla de criação na Avanti?".
Resposta: Era um trio, eu, Ralph e Cimino. O que nós concluímos foi que a empresa nos dava a oportunidade de trabalhar com os melhores e que devíamos aproveitar isso. Decidimos não ter ninguém fixo e chamar, para cada job, quem mais atendesse àquela necessidade. A conceituação das campanhas nós três fazíamos, era essa a nossa missão, e chamávamos quem agregaria. Detalhe: sempre tivemos uma verba espetacular.

Na criação dos filmes, percebemos que chamar o Diretor do filme para participar da criação era um avanço e nesse mood pude criar com Ricardo Van Steen, Ucho Carvalho, Vinícius Mainardi, Luiz Trípoli, Walter Salles Júnior, José Possi Neto, entre tantos outros não menos importantes.

Na criação das peças gráficas, onde a estética da fotografia de moda impera, tive nomes como J.R.Duran, Trípoli, Bob Wolfenson e acho que uma centena de nomes nacionais e internacionais, que já tinham, ou passaram a ter status de primeiro time.

E na criação de promoções e eventos, de entretenimento, esportes e mídia, onde o Cimino exercia com maestria, tivemos nomes também de grandeza absoluta, a destacar-se àquela que viria a ser minha primeira esposa: Bia Aydar.

Para resumir: Cimino e Bia trouxeram, pela primeira vez ao Brasil, sob o patrocínio da C&A, Madonna. E contribuiram para que se consolidasse mega-eventos como Hollywood Rock, Carlton Dance e Rock'n'Rio, em suas primeiras edições.

Você já perguntou também acerca da participação do Alemão e do Woody nesse processo. Eles somam-se aos nomes já citados acima.

O Woody eu já contei que trabalhava comigo na Dois Pontos, como redator e foi então que o conheci. Quando criei o AbuseUse C&A, chamei o Woody, pois, ele é compositor e eu precisava somar o talento dele como publicitário e compositor para escrever as músicas que o Sebastian interpretaria nos filmes. Ele provou sua competência e assim as portas da Avanti se abriram para ele, que também integrou o time de free-lancers até o desligamento do Ralph e a Avanti deixar de existir.

O Alemão também integrou a equipe durante uns 20 anos, como free-lancer.

Ufa! Acho que isso encerra a primeira fase. Agora, vamos lá Marcela, envie as próximas perguntas, você está me ajudando a contar mais do que uma história profissional: uma história de vida.